sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pensamento do dia

Cada vez mais o ditado "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" me persegue!!!!! rsrsrsrs

sábado, 13 de março de 2010

"A vida como ela é... vivida"

13/03/2010
Idosos do Haiti sofrem mais com os fardos do terremoto

Ian Urbina
Em Leogane (Haiti)

Junie Sufrad, 110 anos, sobreviveu ao terremoto no Haiti, parou de repente enquanto descrevia como era a vida no interior do Haiti antes da eletricidade, estradas pavimentadas e carros.
“Eu não sei se é sorte ou azar ainda estar aqui”, ela disse após uma longa pausa, acrescentando que apesar de não ter perdido nenhum membro, o terremoto de janeiro a deixou como uma amputada. “É como se tivesse perdido parte de mim.”
Sufrad é um monumento ao passado em uma nação que foi separada dele.
Como outros sobreviventes idosos do terremoto, ela é um repositório raro da história e cultura deste país, mas ela disse que considera suas lembranças mais um fardo doloroso do que um legado orgulhoso.
Não estranhos às dificuldades, os idosos haitianos se veem distintamente vulneráveis e emocionalmente abalados atualmente. Eles envelheceram em um lugar onde muitas pessoas morrem jovens. Com a longevidade, vem a culpa do sobrevivente.
“Você supostamente não deveria viver mais que seus filhos e netos”, ela disse.
Um censo preliminar, divulgado no mês passado por uma organização de ajuda humanitária, apontou que aproximadamente 7%, ou cerca de 84 mil, dos estimados 1,2 milhão de haitianos que foram deslocados pelo terremoto, têm mais 60 anos.
A ONU também divulgou um relatório no mês passado, declarando que apesar da privação que mulheres jovens e crianças sofrem no Haiti desde o terremoto, são os idosos que correm maior risco. Os idosos têm sido ignorados pelos esforços de ajuda humanitária porque são mais frágeis, têm menos mobilidade e são menos veementes em suas exigências por água e comida, explicaram os representantes da ONU.
Mas as necessidades dos idosos que estão provando ser as mais difíceis, dizem seus defensores, são coisas intangíveis como segurança, continuidade e esperança.
Ao lado das ruínas do Asilo Municipal no bairro Delmas 2 de Porto Príncipe, quase 3 mil desabrigados passaram a habitar o que costumava ser o pátio tranquilo do asilo.
“Eu apenas quero ir para casa”, disse Jacqueline Thermitis, 71 anos, uma moradora do asilo, enquanto olhava para o mar de placas de metal corrugado, lonas e redes de plástico.
Já desorientado pela idade, um homem em uma cadeira de rodas parecia ainda mais confuso ao perguntar a ela quando voltariam para Porto Príncipe. “Este lugar é horrível”, ele disse.
A rotina, que por tanto tempo serviu como guia para os 75 ex-moradores do asilo, se foi. Assim como a privacidade e dignidade, já que tomar banho e defecar agora são feitos em público em baldes.
Aproximadamente metade deles diz estar assustado demais para voltar para dentro do asilo após ter sido reparado. Isso significa que muitos deles, que já estão doentes, enfrentarão a futura estação das chuvas em tendas surradas.
Para evitar disputas violentas, os funcionários de ajuda humanitária pararam de despejar dos caminhões as refeições prontas e água engarrafada como método de distribuição. Em vez disso, eles passaram a entregar os suprimentos a granel para mulheres que aguardam em longas filas que dobram o quarteirão.
Mas o sistema ainda é inadequado para os idosos, dizem os defensores.
“Faz sentido pedir para que uma pessoa de 70 anos carregue um saco de arroz de 50 quilos ou espere por duas horas em uma fila?” perguntou Jonathan Barden, um gerente do programa de emergência da HelpAge International, um grupo de defesa dos idosos.
Um número desproporcional de mais de 200 mil mortos no terremoto foi de pessoas com mais de 60 anos, segundo a ONU. Isso ocorreu principalmente porque a probabilidade era maior dos idosos estarem em lugares fechados, em vez de voltando do trabalho ou da escola, quando o ocorreu o desastre, no início da noite de 12 de janeiro, disseram as autoridades.
Os moradores mais velhos que sobreviveram –ou pelo menos aqueles que sobreviveram com suas faculdades intactas– parecem bastante cientes da escala histórica dos danos.
No parque Champ de Mars, Michel Fretond, 82 anos, apontou que o Haiti foi a primeira república negra independente do mundo. “Agora o relógio voltou ao zero”, ele disse, com um riso zombeteiro.
Não longe dali, o Palácio Nacional e os ministérios da Justiça e Finanças permanecem em vários estados de ruínas.
Na Direction Générale des Impôts, o prédio da receita, homens trajando macacões azuis usavam perfuratrizes para atravessar pilhas de lajes de concreto e ferros retorcidos. Enterrados ali –eles esperam– estão o que restou de arquivos e livros contábeis com informações vitais utilizadas para carteiras de motorista, passaportes, placas de automóveis e documentos de identidade.
“Não faz sentido eu ainda estar aqui”, acrescentou Fretond, descrevendo como seus dois filhos e três netos morreram no terremoto.
Mas Fretond, e outros de sua idade, são uma raridade aqui.
Aproximadamente metade da população do Haiti tem menos de 18 anos e a expectativa de vida é de 61 anos, em comparação a 78 anos nos Estados Unidos.
Mas devido ao impacto do HIV e Aids nas gerações intermediárias, e por causa dos pais frequentemente deixarem o país em busca de trabalho, os idosos exerceram historicamente um papel importante no Haiti, o de cuidar dos membros mais jovens da família.
Mais recentemente, eles têm servido a outros propósitos.
Nas aldeias, os idosos são aqueles que sabem quem morou em uma casa em particular, quem era parente de uma certa criança e quem era o dono de que terras”, disse Michel Bonnardeaux, um porta-voz da ONU, acrescentando que a ONU pediu aos aldeões idosos que ajudem no início de um registro nacional de certidões de nascimento e documentação de imóveis.
“A memória deles é um recurso nacional”, ele disse. “Pelo menos para nós.”
Cindy Powell, uma funcionária de ajuda humanitária da HelpAge que está reunindo as histórias orais dos haitianos mais velhos, disse que em certas ocasiões ela ouviu os idosos escaparem do presente compartilhando uma risada sobre dias melhores. Mas aqueles momentos eram fugazes, ela disse, e as conversas acabavam terminando em um silêncio melancólico.
De volta a Leogane, o epicentro do terremoto, Sufrad estava novamente respondendo perguntas no mês passado sobre sua infância.
Ela não se lembrava das datas. Mas ela se lembrava dos traumas das últimas cinco décadas: terremotos, furacões e “os homens com facões” dos tempos de Duvalier.
Um sorriso largo apareceu em seu rosto ao contar sobre quando provou sorvete pela primeira vez e sobre a encrenca em que se meteu quando fugiu de casa na adolescência para pular o Carnaval.
Sua lembrança mais querida foi de seu casamento, “por volta de quando Borno foi o presidente”, ela disse, se referindo a Louis Borno, que governou de 1922 a 1930. Sua lembrança mais triste foi de ver um de seus filhos ir para a prisão.
Ao ser perguntada por que imaginava ter sobrevivido por tanto tempo e o que futuro poderia reservar, Sufrad deu de ombros.
Em vez de olhar para frente ou para trás, ela disse, ele prefere olhar para o alto.
“Para Deus”, ela disse, apontando para o céu. “Ele me mantém aqui, por ora.”
Tradução: George El Khouri Andolfato

sábado, 2 de janeiro de 2010

Go home!!!!


Ninguém é de ferro

por Moacyr Scliar


O poeta pernambucano Ascenso Ferreira (1895-1965) era conhecido pelo humor e pela irreverência. Nada o comprova mais do que seu poema “Filosofia”:
“Hora de comer, – comer!
Hora de dormir, – dormir!
Hora de vadiar, – vadiar!
Hora de trabalhar?
– Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”.
Alguém poderia dizer que esta é uma genuína expressão do caráter brasileiro, tal como o famoso “Ai, que preguiça!”, que o personagem Macunaíma de Mário de Andrade repete a todo instante. Mas o que o brasileiro comum está longe de ser é preguiçoso. Gente que acorda às 4 da manhã para ir ao trabalho, dá duro em troca de um salário ínfimo, envelhece e adoece trabalhando, jamais poderia ser acusada de preguiçosa. De outra parte, a aversão ou o desprezo ao trabalho é algo frequente e antigo em determinadas classes sociais. A palavra “negócio” vem do latim nec otium (não ócio). E era um termo pejorativo. O ócio era um direito de gente influente, superior; negócio era para a ralé, para os ambiciosos.

O trabalho físico e manual era particularmente desprezado. Isso se tornava evidente no exercício da medicina. Durante muito tempo os médicos consideraram que diagnosticar e tratar era uma ação que deveria ser feita com a cabeça, não com as mãos. Médicos não faziam incisões em abscessos, por exemplo. Quem cuidava disso era o barbeiro. Na era moderna, por causa dos ferimentos de guerra, a cirurgia passou a ser respeitada, mas até há pouco tempo, na Inglaterra, o título “doctor” se aplicava ao clínico; o cirurgião era “mister”.

No Brasil colônia trabalho era coisa para escravo e havia um costume muito curioso entre certos homens: deixavam crescer a unha do dedo mínimo, que atingia enormes dimensões. Tratava-se de uma mensagem: “Esta unha prova que eu não trabalho com as mãos”. Igualmente desprezado era o imigrante, o colono, que labutava no campo ganhando muito pouco. Gente inteligente, gente fina, ganhava dinheiro sem trabalhar.

Mas, por incrível que pareça, a crítica ao trabalho também podia vir da esquerda. O escritor cubano Paul Lafargue (1842-1911) trata desse tema. Filho de um francês com uma judia e neto de uma mulata, Lafargue estudou medicina na França, tornando-se um resoluto militante socialista (não por acaso casou-se com Laura, filha caçula de Karl Marx). Lafargue escreveu O direito à preguiça (1880), um pequeno livro, quase um panfleto, no qual contesta a visão liberal, conservadora ou mesmo esquerdista, do trabalho. É preciso lembrar que nessa época a jornada podia facilmente chegar a 16 horas. Diz Lafargue: “Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Tem como consequência as misérias individuais e sociais que, há séculos, torturam a nossa triste humanidade. Esta loucura é a paixão doentia pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole.(...) Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degeneração intelectual, de toda deformação orgânica”.

A pregação de Lafargue teria continuidade com a obra O elogio ao ócio (1932) do contestador filósofo inglês Bertrand Russel. “A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha 15 horas e algumas crianças cumpriam. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida, e as crianças, afastadas do crime.”

Mais recentemente, o italiano Domenico de Masi lançou o conceito do ócio criativo: trabalho, estudo e lazer conjugam-se para satisfazer melhor as necessidades humanas. Pensando bem, Ascenso Ferreira não estava tão errado...

sábado, 26 de dezembro de 2009

"A última que morre..."

Esperança

Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

Que ela te acompanhe por todo 2010!!!!
bjs
Silke

domingo, 13 de dezembro de 2009

Top Secret


São Paulo, domingo, 13 de dezembro de 2009
DANUZA LEÃO
Um mundo mais especial

Qualquer pessoa pode encontrar suas próprias preciosidades. Para isso é preciso ter curiosidade.


MESMO QUE você já possua os tais bens materiais que mais ou menos todo mundo quer, existem sempre alguns desejos ainda não realizados.
Supondo que você seja uma pessoa tipo normal, que não ambiciona valiosas obras de arte e joias inacreditáveis, quais são as coisas que ainda despertam em você aquela vontade louca de ter e aquele prazer imenso quando consegue?
Bem, para começar, é preciso que elas sejam razoavelmente inacessíveis.
Houve um tempo em que quase tudo era uma festa.
Lembra da felicidade que era ganhar uma barra de Toblerone? Ter uma camiseta importada era o supremo prazer, e fazer uma viagem, uma emoção indescritível.

Tudo era raro, e por isso tão especial.

Mas as coisas mudaram; os Toblerones agora são vendidos nos sinais de trânsito e as camisetas de grife, nos camelôs. Teoricamente é ótimo, já que não é mais preciso ir a Paris para poder ter na geladeira dois potes de mostarda; tudo está na prateleira do supermercado, da água Perrier ao salmão defumado.
Houve um tempo em que as aeromoças eram escolhidas pela beleza, todos os passageiros tratados como VIPs e os brindes das companhias aéreas -o estojinho com a máscara, um minividrinho de água de colônia e o barbeador (fora a caixinha com tabletes de chocolates suíços)- eram apenas o máximo. Lembra da caneta da Varig?
Hoje você pode comer os mesmos pratos em qualquer lugar do mundo e comprar exatamente as mesmas coisas no Rio, em São Paulo, Nova York, Tóquio ou Cingapura. E quando é tudo igual, acaba a graça.
Os especialistas sabem na ponta da língua o que foi lançado a semana passada nos centros de moda, e para ter acesso às coisas é só comprar uma revista e ter uma conta bancária razoável. É mais democrático? É. E tem graça? Nenhuma.
Mas ainda existem coisas que só alguns poucos conhecem, endereços guardados preciosamente e só divididos com pessoas nas quais se tem total confiança. São segredos de Estado, praticamente, mas você também pode fazer sua agenda, única e pessoal, personalíssima. Um pequeno restaurante que não faz parte de nenhum guia gastronômico pode ser inesquecível, tanto como descobrir numa pequena cidade do interior da Itália, ou do Nordeste, a bordadeira que faz os mais lindos lençóis, de fazer babar uma princesa belga. Ainda existem no mundo coisas e lugares que mexem com nossos corações. É aquele bistrô bem pequeno que nunca vai abrir uma franquia; é a bordadeira que nunca vai vender suas peças para uma cadeia de lojas porque cada jogo de lençóis leva seis meses para ficar pronto.
Sabe que existem pessoas que saem pelo mundo com as reservas dos restaurantes feitas e que já sabem até o que vão comer? Isso é a maior prova da falta de imaginação, que deveria ser crime previsto no Código Penal. E o acaso? E a aventura? E a maravilha do inesperado?
Qualquer pessoa pode encontrar suas próprias preciosidades. Para isso é preciso ter curiosidade, bom gosto -e um pouco de personalidade sempre ajuda. Dá trabalho, mas vale a pena, pois só assim se escapa do tédio do mundo atual.
Faça a sua parte: pesquise, procure e ache aquele tecido -seja ele o mais modesto algodão ou o mais caro brocado- que é único; ou aquele restaurante modesto, numa rua escondida, onde vai encontrar uma deliciosa empada de camarão que poucos conhecem, pois ainda não foi descoberta pelos que fazem os guias. Na sua memória ela será, sempre, a mais especial, por ter sido descoberta por você. E quando isso acontecer, não conte a ninguém, só a quem merece. Faça isso sempre, todos os dias da vida; é esse o verdadeiro luxo.